sobre-escrever-e-sobre-violência

Faz vinte minutos que estou olhando para a página em branco do Word, o que poderia ser uma mentira, se considerar que os primeiros 18 desses 20 passei com o técnico resolvendo o meu login no computador, mas é verdade porque durante todo esse tempo eu fiquei tentando engendrar alguma frase na minha cabeça. Dois minutos diante da tela, com alma de 20, e cinco linhas falando sobre isso e pensando onde quero estar daqui mais vinte minutos, quando o tempo de escrita estipulado acabar. E me ocorre que, se não fosse esse o caso, talvez eu não encarasse o vazio, provavelmente nem escrevesse e, em escrevendo, não estaria digitando e apagando tanto as linhas como fiz com este texto. O tempo vai acabar e eu vou ler em voz alta para outras pessoas. Não reclamo, eu amo. Mas me ocorre que essa pressão não deixa de ser um tipo de violência.

Eu imagino os colegas se remexendo nas cadeiras, a professora sentindo um geladinho no fundo da bexiga, porque a mim também incomoda a palavra “violência” na maioria das suas acepções, só que, se parar para pensar, nenhuma criação surge na paz. Do big bang à fecundação, dos diálogos socráticos a passar as compras no caixa do supermercado — tudo é violento. Eu estou aqui, agora, violentando as sinapses neuronais de quem me lê ou escuta com essas palavras todas que extraí da minha cabeça dando leves petelecos em um teclado.

Violência simbólica, violência física, até certo ponto é tudo tão retórico. A discursividade retratista do nosso ideal de civilização condena qualquer tipo de ato violento, mas com certa frequência me pego pensando quantas das conquistas sociais de hoje foram conseguidas com diálogo. Certa vez, conversei longamente com uma amiga lésbica a respeito de possíveis soluções para a grafia do gênero neutro e, talvez para dar um basta na minha momentânea obsessão, ela diz que usa o x pra tudo e foda-se. Mas, e as pessoas cegas, eu questionei, que usam leitores de tela que não sabem ler o x? “Que se danem. Eu fui excluída a vida inteira, não vou ser eu a me preocupar com inclusão agora, eles que encontrem a própria solução”.

Na hora eu fiquei um pouco chocada, mas a bem da verdade, eu não consigo refutar o argumento dela. Por um lado, ela tem razão em não tomar para si as dores do mundo todo. Por outro, é paternalista demais pensar que pessoas com deficiência não podem abraçar as próprias causas e brigar pelas suas necessidades. Talvez realmente seja mais produtivo empurrar um x goela abaixo e deixar que eles resolvam seu problema de software.

Dei voltas, o tempo acabou, e não consegui chegar no ponto que eu mais queria que é, eu acho, talvez, não sei ainda direito, mas me parece que a criação é em si um ato violento. É marcar na pele do mundo aquilo que EU quero dizer. E chegar no ponto em que nem toda violência é negativa. Esses dias vi o perfil uma mulher que cria aranhas e dá mosquinhas pra elas comerem. Num dos vídeos, uma das aranhas devora uma mosca que parece uma abelha, e as pessoas ficaram chocadas. Então ela argumentou: não é uma abelha, é uma mosquinha de fruta. A violência está ali, é do ato violento de se alimentar que a aranha sobrevive e a mosquinha não. De igual maneira o seria se a aranha comesse uma abelha. O que diferencia uma coisa da outra? Nem sei mais onde quero chegar, a violência do relógio me chama.